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Publicado em 10 de abril de 2017

Dancing BabyDancing Baby

Vivemos alguns momentos na vida que nos fazem refletir sobre a vida toda e, consequentemente, fazer um balanço de pains & gains. Meu pai costumava citar Neruda para expressar a importância disso:

“Algum dia em qualquer lugar
inevitavelmente te encontrarás contigo
mesmo, e essa pode ser a mais feliz ou a mais
amarga de tuas horas.” — Pablo Neruda

Pois bem, recentemente, passei por um desses momentos preciosos durante a cerimônia de entrega do Prêmio Profissional Digital 2017 da ABRADi-SP. Antes da premiação, foi apresentado um vídeo com uma breve história da internet, e me dei conta, emocionada, que essa é também a minha história. A partir de 1980, ano em que entrei na faculdade de engenharia, eu vivi e participei de cada momento da jornada digital mundial, seus altos e baixos. A tecnologia está intimamente misturada com o DNA da minha vida. Em função disso, eu gostaria de ter dito algumas coisas naquele momento, mas não consegui… Então, tomei coragem, e a liberdade, de dizer aqui:

***

Já programei em FORTRAN, DBase, Cobol, C++, Basic, HTML, VoiceXML…

E para isso, já perfurei cartão, organizei decks e rodei jobs em mainframe; usei fita, disquete de todo tamanho (8, 5 ¼ e 3 ½ pol), zip drives, pen drive e nuvem. Passei por computadores de todo porte: grande, mini e micros (até já tive um Unitron Apple II), palm tops e todo tipo de device até chegar aos tablets e smartphones atuais. O meu mundo é mediado por telas desde que me lembro dele, sejam elas P&B, verdes, monocromáticas de qualquer cor, coloridas e de todas as dimensões.

Aprendi o bê-á-bá não apenas com o código alfabético, mas também com o Morse. Quando eu era criança, tipo 7 anos de idade, meu pai escondia balas e chocolates pela casa e mandava bilhetes em Morse pra gente (meus irmãos e eu) decifrar a localização dos tesouros. Rapidamente nos tornamos fluentes em pontos e traços analógicos. Daí, para zeros e uns digitais, apenas mais um passo 😉

Fui mãe digital desde o início. Explico. Meu filho já fez xixi de chafariz em relatório impresso em formulário matricial enquanto eu trocava sua fralda. Já dei curso de Lotus 123 para engenheiros enquanto o meu peito vazava leite por cima da blusa. Sem grandes alardes eu dizia: “Bom, todo mundo aqui tem mãe, né? Faz parte da vida”. Pois é, vida, cada vez mais híbrida de bits e átomos. Cíbrida.

Já fiz sistemas para engenharia, mas também para crianças e artes — de programas de cálculo de volume de concreto em barragens, troca de disquete automática do driver (de 8 polegadas), preenchimento de cartões de loteria, cálculo e impressão de caminho crítico de projetos, cálculo estrutural em concreto… joguinhos infantis …. até moZaico de voSes, Oráculos Digitais, Locative Painting e WeCybrid.

Fui webmaster, sim, webmaster — aquele profissional que fazia tudo em uma área nova que não se conhecia direito e que não tinha manual ou curso pra ensinar. Pra colocar uma imagem de 30kb no ar, tinha que fazer milagres. Tive a honra de participar da construção e evolução de sites que morarão eternamente no meu coração, como o da Turma da Mônica, que lançamos em 1996, nos rendendo tantas alegrias, com experiências inéditas e inovações fomentadas pelo brilhante e querido Mauricio de Sousa, e que resultaram em inúmeros prêmios.

Já usei os lendários WordPerfect, Macromedia Director, ICQ, Video Texto, Netscape navegador, Altavista e Cadê. “Photoshopo” até os meus sonhos e agora, o sonho tem sido ajustar a IA pra “gestão e design” da vida. Novos desafios!

Não consigo lembrar de mim sem tecnologia. Aos 11 anos de idade, ganhei do meu pai um kit de eletrônica para montar um rádio. Muitas horas e resistores, transistores e capacitores depois, penso que, até hoje, uma das grandes emoções da minha vida foi virar o botão de ligar e ouvir aquele rádio funcionar! Isso foi na década de 70, mas é muito similar ao que os kits eletrônicos da Lego fazem hoje, ou mesmo os kits de robôs que compro nas minhas visitas ao MIT.

Já dei aula, escrevi muito texto, livro, gravei vídeos e apresentei muita palestra e curso sobre tecnologia nesses tantos anos. Tecnologia na engenharia, comunicação, marketing, educação, arte e vida. Mas também li muito, fiz muito curso, viajei, estudei, ralei e continuo ralando e aprendendo para poder seguir a viagem nesse mundo cada vez mais complexo e desafiador, que me motiva a cada segundo.

Principalmente, e acima de tudo, conheci muita, mas muita gente mesmo, inspiradora que fez, e continua fazendo, toda a diferença na minha vida, construindo comigo o meu caminho! Se eu escrevesse todos os seus nomes, não teria post suficiente para tanto agradecimento que preciso fazer. Assim, você que faz parte da minha vida, sabe a importância que tem pra mim! #gratidao

Obrigada, ABRADi-SP, pelo prêmio especial que recebi, que além da honra e emoção que me trouxe, tornou-se também o gatilho que gerou na minha mente esse filme de retrospecto da minha vida cíbrida, que aqui compartilhei. Empresto as palavras de Neruda, mais uma vez, para expressar o que sinto intensamente: “Confesso que vivi”. O que para a maioria das pessoas é história, para mim é memória 😉

Entrega da Homenagem Especial do Prêmio Profissional Digital ABRADi-SP para Martha Gabriel, em 4/04/2017, realizado na Escola Panamericana de Arte de São Paulo

Entrega da Homenagem Especial do Prêmio Profissional Digital ABRADi-SP para Martha Gabriel, em 4/04/2017, realizado na Escola Panamericana de Arte de São Paulo

(*) texto originariamente publicado no LinkedIn Pulse em 07/04/2017

(**) Imagem de abertura: “Oogachaka baby” — um dos gifs animados mais importantes da história

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